A Helena Damião apresenta este texto tentando branquear a vida e a imagem de Rousseau. Muita gente acreditará naquilo que ela transcreveu, mas não é por isso que a Helena Damião passa a impôr o seu ponto-de-vista ao transcrever acriticamente um texto: das duas uma: ou ela ignora e transcreve a opinião de Barzun como sendo a verdade, ou ela não conhece minimamente a obra de Rousseau, e então é desonesta.
Vejamos que diz o ateu confesso Bertrand Russell acerca de Rousseau:
« As ideias do primeiro ensaio foram elaboradas em outro, o “Discurso Sobre a Desigualdade”, (1754), que no entanto não teve prémio. Afirmou que “o homem é naturalmente bom e só as instituições o tornam mau” — antítese da doutrina do pecado original e da salvação pela Igreja. »
Continuo a citar Russell:

«A origem da sociedade civil e consequentes desigualdades — segundo Rousseau — está na propriedade privada. “O primeiro homem que vedou um terreno e disse: 'isto é meu', e achou pessoas bastantes simples para acreditar nisso, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil”. Vai ao ponto de de deplorar a introdução da metalurgia e da agricultura. O trigo é símbolo da nossa infelicidade. A Europa é um continente infeliz por ter o máximo do trigo e do ferro. Para abandonar o mal, basta abandonar a civilização, porque o homem é naturalmente bom, e o selvagem depois de jantado está em paz com toda a natureza e é amigo de todas as criaturas.
Rousseau mandou este ensaio a Voltaire, que respondeu [1755] : “Recebi o seu novo livro contra a raça humana, e agradeço. Nunca se utilizou tal habilidade no intuito de tornar-nos estúpidos. Lendo este livro, deseja-se andar de gatas; mas eu perdi o hábito há mais de sessenta anos, e sinto-me incapaz de readquiri-lo. Nem posso ir ter com os selvagens do Canadá porque as doenças a que estou condenado tornam-me necessário um médico europeu, e por causa da guerra actual naquelas regiões; e porque o exemplo das nossas acções fez os selvagens tão maus como nós.”

O que me parece é que Barzun diz que Rousseau não escreveu aquilo que Rousseau escreveu. E diz que Voltaire era um diminuído mental quando interpretou mal as palavras de Rousseau — as tais palavras que Rousseau não escreveu. E diz também que Bertrand Russell não sabia interpretar um texto. Bem sei que Barzun é francês, mas o chauvinismo tem limites...
A história da vida de Rousseau é a história de um indivíduo com sérios problemas psicológicos, problemas esses que se traduziram nas suas ideias. O insuspeito ateu Bertrand Russell conta-nos as mais obscuras e incríveis facetas de Rousseau na sua “História da Filosofia Ocidental”: convido a Helena Damião — e os seus leitores — a ler o que o ateu e naturalista Russell escreveu acerca de Rousseau: poupar-me-ia o trabalho deste postal.